samedi, avril 15, 2006

Strange Fruit




Fechou a porta. Ainda era possível ouvir o piano tocar Strange Fruit. Abriu a garrafa de gin que tinha nas mãos, acendeu um cigarro e iniciou uma conversa com o espelho. Algo de muito importante tinha dado errado. Olhava-se – um rosto desconhecido, uma vida feita de muitas vidas, todas elas distantes demais deste momento.
Passava um batom cor cereja nos lábios e em seguida metia goela abaixo doses generosas do líquido transparente. Embriagava-se com sua imagem retorcida no espelho. Todas as lembranças ela transformara em perfumes vagos, roubados pelo vento. Escolhas feitas para sustentar sua vaidade. Diana era beleza instigante. Olhos famintos procuravam suas curvas. Recebia flores, declarações de amor, mas ela queria mais: O que era mesmo que queria?
Desabotoou o vestido e deixou que caísse todo vermelho no chão. Dançava em passos curtos enquanto se despia por completo. Só não tirou os sapatos - os saltos lhe caiam bem. Olhou-se nua no espelho; queria tanto ela mesma com seus sapatos vermelhos e seus cabelos dourados! Por fim chegava em seus olhos – tristes demais para serem vistos. Desviava, dançava, bebia – Billie Holiday. Fechou as cortinas. Aproximou-se da bolsa e de dentro dela pegou uma caixinha de prata com um desenho antigo, minuciosamente trabalhado em alto relevo. Apertou levemente um pequenino botão ao centro e encontrou vários comprimidos brancos; um a um colocou-os na boca parando apenas para deitar a garrafa de gin em seus lábios – a sede era de alívio. Dentro dela tentava percorrer um caminho intransitável; um espiral branco, sem fim, pura ironia – era para si mesma inatingível.