vendredi, décembre 23, 2005

Duas xícaras de chá


O inesperado, um golpe de sorte – se Deus olhasse por mim agora.
Sentia-se abandonada, injustiçada, afinal nascera Vitória, pronta para vencer. E por que de repente tudo começou a ruir? Que castigo era esse?
Irrita-se com a chaleira apitando – Que merda!
Vitória perdera boa parte dos movimentos da perna esquerda e por isso desce as escadas devagar, apoiando-se nas paredes. Desliga o fogo. As bolhas estouram na panela e com elas explode uma vida inteira – que turbilhão. Vitória!
Tira do armário a louça inglesa de ocasiões especiais. Arruma na bandeja as duas xícaras de chá com os pires em simetria impecável. Serve a erva cidreira escaldante e em seguida pinga uma grande quantidade de gotas de algum líquido que não é adoçante.
Martiriza-se pela lentidão com que sobe os degraus com a bandeja nas mãos – Que vida...
Chegando à porta do quarto de sua mãe, Vitória de súbito pensa ter ouvido gritinhos e risadas da infância alegre daquela casa. Tudo poderia ter sido muito diferente, como no passado. Mas neste momento é um beco.
O cheiro de urina do cômodo é forte, remete a uma atmosfera suja, indigna do sobrenome. D. Estella espera o fim com os travesseiros já arrumados nas costas. Vitória senta-se na cama. Aos poucos ajuda a mãe a esvaziar a xícara – Que vergonha...
A língua da velha desliza de um canto ao outro dos lábios como se a morte amarga não fosse.
A filha deixa cair uma lágrima que percorre a cicatriz em seu rosto. A mãe agradece com um esboço de sorriso.
Ainda sentada Vitória apenas troca uma xícara vazia pela outra cheia. Bebe tudo. Era a sua vez.
Em seguida vai até o quintal. Pega os galões de querosene e despeja-os no andar de baixo do sobrado. Com uma tocha improvisada ateia fogo no carpete.

Antes do fogo se espalhar por completo, consegue ainda chegar ao lado de sua mãe, onde se deita para finalmente libertar-se da vida – Que sorte!

dimanche, décembre 11, 2005

Cálice de Hermes

Nunca arriscou dizer
que seria ele, sim.
Fingia não saber...
mas as palavras estavam grudadas
em todo o seu corpo,
ditas por ele numa encruzilhada.

Eram noites disfarçadas de sonhos.
Tinham suas próprias idéias
daquilo que era importante.
Com a mão direita ele lhe
apontava o céu.
Ela respirava o ar da súbita descoberta
de que sempre se sabe mais do
que se imagina.
Caminhavam insistentemente
para não chegar em lugar algum.
Queriam compartilhar os passos,
lado a lado,
sem temer as despedidas.

samedi, décembre 10, 2005

O Antiquário


O pai e a mãe estão mortos.
Portal invisível do tempo
que chega entre os homens.
Hoje ele pensou:
A vida deve ter vergonha de mim.
Janelas fechadas...
Ele roubou todas as cores do céu
e enterrou uma teia de instantes
dizendo – isto pode ser para amanhã.
Acostumou-se com os retratos
antigos das folhas caindo no outono.
Detesta novidades.

Canções de Novembro


Minha imaginação faz outro tanto:
Débil, ensaio o suspiro final.
Eu poderia ser você lamentando
a má sorte dos dias miseráveis,
andando em asfalto de fumaça.

Rostos vazios,
Corpos cobertos de flores
em vestes da cor mais triste.
Eu teria a ruína e o cárcere
para recordar...
E a vida que não coube aqui.

Labirinto



O espelho oferece uma imagem triste,
indícios da culpa que o vício sustenta.
O monstro afoga recordações
de desencontros,
perda.
Existe uma voz
que não pode ser ouvida.
Continente escondido,
apenas o eco da loucura.
Alma faminta tragando a morte.
Mais uma porta do inferno se abre.