O inesperado, um golpe de sorte – se Deus olhasse por mim agora.
Sentia-se abandonada, injustiçada, afinal nascera Vitória, pronta para vencer. E por que de repente tudo começou a ruir? Que castigo era esse?
Irrita-se com a chaleira apitando – Que merda!
Vitória perdera boa parte dos movimentos da perna esquerda e por isso desce as escadas devagar, apoiando-se nas paredes. Desliga o fogo. As bolhas estouram na panela e com elas explode uma vida inteira – que turbilhão. Vitória!
Tira do armário a louça inglesa de ocasiões especiais. Arruma na bandeja as duas xícaras de chá com os pires em simetria impecável. Serve a erva cidreira escaldante e em seguida pinga uma grande quantidade de gotas de algum líquido que não é adoçante.
Martiriza-se pela lentidão com que sobe os degraus com a bandeja nas mãos – Que vida...
Chegando à porta do quarto de sua mãe, Vitória de súbito pensa ter ouvido gritinhos e risadas da infância alegre daquela casa. Tudo poderia ter sido muito diferente, como no passado. Mas neste momento é um beco.
Martiriza-se pela lentidão com que sobe os degraus com a bandeja nas mãos – Que vida...
Chegando à porta do quarto de sua mãe, Vitória de súbito pensa ter ouvido gritinhos e risadas da infância alegre daquela casa. Tudo poderia ter sido muito diferente, como no passado. Mas neste momento é um beco.
O cheiro de urina do cômodo é forte, remete a uma atmosfera suja, indigna do sobrenome. D. Estella espera o fim com os travesseiros já arrumados nas costas. Vitória senta-se na cama. Aos poucos ajuda a mãe a esvaziar a xícara – Que vergonha...
A língua da velha desliza de um canto ao outro dos lábios como se a morte amarga não fosse.
A filha deixa cair uma lágrima que percorre a cicatriz em seu rosto. A mãe agradece com um esboço de sorriso.
A língua da velha desliza de um canto ao outro dos lábios como se a morte amarga não fosse.
A filha deixa cair uma lágrima que percorre a cicatriz em seu rosto. A mãe agradece com um esboço de sorriso.
Ainda sentada Vitória apenas troca uma xícara vazia pela outra cheia. Bebe tudo. Era a sua vez.
Em seguida vai até o quintal. Pega os galões de querosene e despeja-os no andar de baixo do sobrado. Com uma tocha improvisada ateia fogo no carpete.
Antes do fogo se espalhar por completo, consegue ainda chegar ao lado de sua mãe, onde se deita para finalmente libertar-se da vida – Que sorte!
Em seguida vai até o quintal. Pega os galões de querosene e despeja-os no andar de baixo do sobrado. Com uma tocha improvisada ateia fogo no carpete.
Antes do fogo se espalhar por completo, consegue ainda chegar ao lado de sua mãe, onde se deita para finalmente libertar-se da vida – Que sorte!


